Ipu dos jornais para o livro
Editora: Gráfica e Editora Nacional Ltda.
Ano: 2009
Gênero: Reminiscências
IPU DOS JORNAIS PARA O LIVRO
(Comentário de Raquel Lima Damasceno)
Logo que vi o título, fiquei interessada. Imaginei que seria um apanhado de notícias do Ipu, em vários veículos, por determinado período, que poderia proporcionar uma boa análise sociológica, através da análise dos temas e até da semiótica, de forma imparcial e não romantizada.
Mas, logo de início, o autor deixa claro que se tratavam de notícias elaboradas pelo próprio, em sua grande maioria em um jornal específico e, durante a leitura atentei a temporalidade de final da década de 60 e início da década de 70, embora no final do livro o autor tenha incluso dois temas da década passada.
Após ter alinhado minhas expectativas, continuei curiosa sobre o conteúdo, visto que achei bastante louvável a iniciativa do autor em procurar manter um canal contínuo de envio de notícias de sua cidade, em um período bastante carente nesse sentido. Além disso, verifiquei a intenção do autor em, além de levar notícias do Ipu, sinalizar as necessidades da cidade e até cobrar de algumas figuras do poder público, melhorias por ele identificadas.
Os assuntos das notícias tratam, em boa parte, da gestão de determinado prefeito; fala de artistas da cidade (Wilson Lopes, Banda Os Cometas); a Bica e suas potencialidades (construção de estrada, balneário, sugestão de outros atrativos); pavimentação de ruas; festejos sociais; eletrificação; clube juventude rural - 4S (Saber, Sentir, Saude, Servir); mina de ouro; vereadores ausentes; reforma de cemitério; carência de ensino médio na escola pública; avanços na saúde sanitária e materna de Ipu, dentre outras.
Na leitura das notícias, ao mesmo tempo que nos sentimos gratos por determinado empenho de um ou outro representante público, lamentamos também por descasos identificados. Alguns por falta de apoio e interesse de outras esferas do poder, outros pelo que poderia ser acomodação mesmo dos atores políticos. Talvez se mais obras assim fossem aprofundadas e levada para o conhecimento de muitos, alguns governantes atentariam para que o legado de suas respectivas gestões nem sempre está em obras festejadas mas, principalmente, em obras efetivadas, continuadas e, de fato, relevantes.
É lamentável quando identificamos projetos que foram desenvolvidos, com boa vontade e, por algum motivo não tiveram continuidade. Seria mais produtivo apoiar o que possa está dando certo ao invés de reinventar a roda mas, enfim, esse foi apenas um comentário a parte do que se constata de ações contraproducentes.
Vale ressaltar o cuidado do autor que, como demonstrou em uma de suas notícias, a sempre está garimpando notícias na cidade entretanto, por falta de assuntos relevantes, ou até de interesse, algumas instituições eximiam-se em enviar informações que pudessem ser publicadas. Segue um comentário do autor, sobre esse fato, em uma de suas notícias: "...Se assim falamos é porque não sabemos do que eles estão fazendo ou pretendem fazer. É porque eles não têm disposição ou tem medo de informar, pelo menos o que de bom em Ipu está sendo feito, para conhecimento dos ipuenses residentes em outras cidades, mas que se interessam pelas notícias de sua terra natal, principalmente por não quererem que ela seja ou se torne uma cidade incógnita..."
Já na contracapa do livro o autor resume sua visão do que seria benéfico para o Ipu, em relação aos investimentos do poder público. Dentre suas sugestões o foco no turismo é constante. Suponho que nesse foco esteja embutida uma visão sustentável e não predadora, pois o turismo predador exaure uma cidade, impactando em seus recursos naturais. Mas, nas entrelinhas, percebe-se seu cuidado com a terra.
Entusiasta de uma educação profissionalizante e de uma agricultura eficiente, geradora de emprego e renda, o autor exorta a não se assustarem com o progresso complementando, com suas palavras: "associe-se ao desenvolvimento e a grandes empreendimentos". Assim, almeja o Ipu como, pelo menos, a segunda cidade da zona norte na perspectiva sócio-cultural e econômica.
Por citar bastante Delmiro Gouveia em suas notícias, provavelmente o autor inspira-se na versão desenvolvimentista e empeendedora dessa referência na área.
Apenas uma observação: particularmente sou também entusiasta das fontes de energias renováveis, limpas e sustentáveis entretanto, apesar de não ser especialista, ouso opinar, em relação a sugestão do autor sobre espaço para energia eólica na cidade, talvez fosse melhor pensar na perspectiva da energia solar visto que a eólica, além do alto custo de implantação e manutenção gera impacto visual considerável (poluição visual), além de modificação da paisagem e necessidade de amplos terrenos para instalação das torres e turbinas (além do alto custo). Outro agravo seria o impacto sonoro (produz ruído constante) e o risco para a fauna. Estudos apontaram que turbinas eólicas são inimigas de aves regionais e migratórias. Foram encontrados pássaros mortos, próximo de parques eólicos. Não só as aves que vivem próximo dos parques eólicos são prejudicadas; uma parte relevante das espécies encontradas mortas provém de locais a centenas de quilómetros.
Mas enfim, como disse, não sou especialista na área, fica apenas a título de reflexão para o caso de sugestão da fonte de energia possa ser substituída por outra, também renovável, oriunda de fonte limpa e sustentável.
No mais, resta parabenizar o autor por sua iniciativa em manter o Ipu nas páginas de jornais, até como numa forma de provocar o debate em prol de melhorias para a cidade.
Com mais fontes similares talvez pudéssemos ter uma vitrine das reais benfeitorias que foram implementadas na região, ao longo dos anos, identificando quem focou apenas em investir em benefício próprio e de apenas uma patota, de quem, de fato tinha espírito público e, mesmo com algumas reservas colaborou para o bem comum.
Seguem alguns trechos:
"... Embora depois de se extinguiram todos os seus órgãos de imprensa que possuía, surgiu de nossas ideias - Ipuense em Revista - e, agora, aberto e disposto a tudo o que é novidade, conquista e aventura."
"... Como representante da Voz de Ouro ABC do Ceará, dentre os 21 finalistas de outros Estados, Wilson Lopes esteve presente em São Paulo e, na Rádio Record, com auditório super lotado, classificou-se em quinto lugar cantando o samba de nosso conhecido compositor Luís Assunção: Adeus Praia de Iracema..."
"...Como se vê, bem poderá o atual arcebispo desta capital encaminhar ao Vaticano um novo processo solicitando a transformação da paróquia de Ipu em sede de diocese, possuindo como área de atuação, as cidades vizinhas acima citadas..."
"A antiga e abandonada Rua do Papoco começou a ser olhada pela atual administração municipal, com sua construção já iniciada, que a transformará em uma grande avenida. Segundo informações fornecidas pelo prefeito, podemos adiantar, ganhará o nome de Avenida da Municipalidade..."
"... Domingo passado, no Estádio Coronel Antônio Pereira de Farias, em Ipu, realizou-se sensacional encontro de fute"association", entre as equipes de Tianguá e Ipu. Ao final da partida saiu vencedora a equipe ipuense, com um escore de 2 a 1..."
"Completam-se hoje cinquenta anos da morte de Delmiro Gouveia, o inesquecível pioneiro da industrialização do Nordeste, abatido a tiros da noite de 10 de outubro de 1917."
"A juventude, principalmente a juventude rural é a maior vítima do nosso País, que está em desenvolvimento. É ela que recebe direta ou indiretamente quase todos impactos dessa mudança. É essa juventude que, sem opções, conta com reduzidas possibilidades de educação e enfrenta toda a sorte de endemias..."
"É só em que se fala, ultimamente, é no ouro do Ipu. Ouro do Ipu na boca do ovo, ouro do Ipu nos jornais, ouro do Ipu em Ipu..."
"Agora, no início da Década da Educação, apesar de o Grupo Escolar Cel. José Lourenço ter sido construído há quase seis anos e ainda não haver funcionado, simplesmente por falta de contratação de mestras..."
"...A organização, apenas com o trabalho de uma pessoa, já produziu mudas deImburana, Jatobá, Janaguba, Ipê Roxo, Ipê Amarelo, Ipê Amarelo do Cerrado, Pau Brasil e Azeitona. Plantam também Aroeira, Ingá, Jenipapo e Bacuri. A AMAI objetiva produzir todos os tipos de espécies nativas existentes na região ipuense."