Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nossos serviços.
Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nossos serviços.

Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes

Tipografia
  • Menor Pequeno Médio Grande Maior
  • Padrão Helvética Segoe Geórgia Horários

. Rio de Janeiro/RJ
. Ingreso: 18 Jan 2013 
. Email: Este endereço de e-mail está sendo protegido de spambots. Você precisa habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 
. Padrinho: Ricardo Aragão  

 

DALINHA CATUNDA APONTAMENTOS BIOGRÁFICOS

Texto do Acadêmico José Solon Sales e Silva

Titular da Cadeira Nº 34 - Patrono: Cônego Francisco José Aragão e Silva

 

            Ipueiras, cidade que se limita ao sul de Ipu, tem sua história de formação com as três sesmarias concedidas pela coroa portuguesa, no século XVIII, nas porções de Tamboril, Ipueiras e Ipu.

            Seu topônimo é oriundo do tupi-guarani, conforme Silveira Bueno, em seu Minidicionário da Língua Portuguesa, significando y (água) mais puera (que já foi e não é mais) significando ‘lugar raso onde se acumula água’. Ressalte-se que a cidade é cortada pelo rio Jatobá, rio intermitente característico do semiárido brasileiro. A denominação original da cidade foi Fazenda Ipueiras até 1883, quando passou a ser somente Ipueiras.

         Assim como Ipu, Ipueiras corre no lado sul da Chapada da Ibiapaba e possui 13 distritos (IBGE, 2020) a saber Ipueiras (distrito sede), Alazans. América, Balseiros, Barrocas, Engenheiro João Tomé, Gázea, Livramento, Matriz de São Gonçalo, Nova Fátima, Nova Graça, São José e São José das Lontras.

            Ipueiras é terra de filhos ilustres nascidos notadamente na primeira metade do século passado após episódios marcantes para a história do Brasil, tais como a Segunda Grande Guerra Mundial. Dentre eles destacamos, do mundo das letras, os grandes Jeremias Catunda Malaquias (1926/2009), que destacou-se na crônica e na poesia. Conforme Frota (2009): “Jeremias Catunda Malaquias foi uma figura das mais valiosas no campo cultural de Ipueiras, seu trabalho rico em crônicas, poemas e poesias nasceu como fruto de um grande amor pela terra natal.”

          Outra autoridade na área das Letras foi o Prof. José Costa Matos (1928/2009), foi auditor e professor de Direito da Universidade Federal do Ceará e da Universidade de Fortaleza. Meu pai Antônio Solon de Farias e Silva, que foi professor do Colégio Otacílio Mota, em Ipueiras, por muitos anos, tornou-se amigo do Prof. Costa Matos e tempos depois fui seu colega no Centro de Ciências Humanas da Universidade de Fortaleza, onde ele ensinava Língua Portuguesa e eu Direito Constitucional. Com ele convivi durante mais de 10 anos, ressaltando-se que ele já era consagrado e eu ainda em início de carreira no magistério, sempre ouvindo-o e sobretudo aprendendo, nos momentos de intervalos de aulas, na sala dos professores. Prof. Costa Matos era tão atuante nas Letras que ocupou a Cadeira Nº 29 da Academia Cearense de Letras.

         Também ipueirense ilustre destacado na área das Letras é Gerardo Majella Melo Mourão (1917/2007) foi poeta e escritor brasileiro tendo conseguido projeção internacional e sido respeitado como escritor no exterior. Era membro da Academia Brasileira de Filosofia assim como participou do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi um dos poucos brasileiros indicado para o Prêmio Nobel de Literatura em 1979, tamanha sua competência.

          Deste grupo de expoentes literários a caçula dos ilustres é Maria de Lourdes Aragão Catunda, conhecida carinhosamente no meio literário por Dalinha Catunda. Neta paterna de Antônio Bezerra de Pinho e Rosina Catunda de Pinho é filha de Espedito Catunda de Pinho (1917/2012), nascido em Ipueiras em 5 de setembro. Espedito casa-se com Maria Neuza Aragão Catunda com quem teve oito filhos sendo cinco homens e três mulheres. Pelo lado materno Dalinha é neta de Gonçalo Ximenes Aragão, que foi chefe da estação de Ipueiras tendo tido uma vasta penetração na sociedade de Ipueiras em função da sua posição.

           No ano em que o Presidente Getúlio Vargas cria o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES e também é criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB nasce Maria de Lourdes Aragão Catunda, em Ipueiras, em 28 de outubro de 1952. No mesmo ano nasceram outras celebridades brasileiras tais como o cantor Luiz Melodia; o piloto de Fórmula 1, Nelson Piquet e Vanderlei Luxemburgo, técnico de futebol.

            De personalidade forte tem como característica principal a criatividade, sendo, além de criativa imaginativa, possuindo determinação e perseverança. Tudo isso deduz-se pela leitura de sua obra, vasta e polarizada, escrevendo cordel com propriedade aonde retrata toda a paisagem ipueirense e por que não dizer cearense e nordestina com afinco e propriedade. Sua produção poética traz uma forte carga de suas vivencias de mocidade passadas em Ipueiras. A mãe de Dalinha, D. Neuza, era poetisa e sua irmã, tia de Dalinha, contadora de histórias, origem certamente de seu talento de vez que o dom é nato.

           A arte no seio familiar é bem forte, pois até aonde temos conhecimento seu irmão, Antônio Aragão Catunda (1958/2018), tratado pelos ipueirenses pelo hipocorístico Tony foi poeta romântico conforme consta de projeto de lei, apresentado pela edilidade ipueirense, em 2019, a Câmara Municipal, para apor nome de rua em sua homenagem. Além de poeta foi compositor, cantor e violonista, tendo sido radialista e atuado nos meios de comunicação social da Prefeitura Municipal. O projeto de lei referido foi encabeçado por meio de abaixo assinado por iniciativa de sua irmã, Dalinha Catunda.

            Lourdes Catunda migrou de sua Ipueiras para o Rio de Janeiro muito jovem, ainda não tinha concluído o colegial surgiu a necessidade de migrar. Conforme Oliveira e Soares (2016, pág. 93) o motivo da migração foi [...] por não serem aceitas pela família e sociedade. “O motivo foi uma gravidez, inesperada, de uma jovem da sociedade que, quebrando tabus, quebrou regras e quebrando regras foi expulsa do paraíso”. (Entrevista às autoras). Na mesma entrevista concedida as autoras indicadas a própria Dalinha enfatiza a dificuldade dos primeiros tempos no Rio de Janeiro, ao relembrar que:

           Foi difícil, primeiro pelo meu comportamento de menina do interior numa cidade grande. Meu modo de vestir, meu sotaque nordestino, minha sinceridade que soava como agressividade. E porque lá eu tinha tudo e aqui no Rio eu teria que começar do zero.

            No Rio trabalhou inicialmente em um laboratório e dai passou a uma lavanderia. Nesta segunda ocupação os gestores descobriram que ela sabia concertar roupas e passou a ganhar bem melhor, chegando os rendimentos dos concertos a superar mesmo seu salário. Posteriormente saiu da lavanderia e passou a trabalhar em casa tendo como clientes várias lavanderias. (OLIVEIRA E SOARES, 2016).

            Nos versos da própria biografada ela assim conta a causa da sua migração:

Nas terras alencarianas

Eu nasci e me criei

Não foi por causa da seca

Que de lá eu desertei

Parti para me libertar

E aprender a voar

Migrante assim me tornei (CATUNDA, 2016).

            É patente a causa de sua migração centrada sobretudo no preconceito e machismo de uma sociedade patriarcalista. O único colégio existente então na cidade, não aceitou sua matrícula pelo fato da gravidez. É de ressaltar-se que este fato migratório certamente ocorreu no final dos anos 60 ou início dos anos 70.

            Sua veia para o verso aflorou depois de chegar ao Rio de Janeiro e desde que começou não parou mais. A colega poetisa Maria do Rosário Pinto afirma que Dalinha é dona de uma temática corajosa, carregada de humor e com rimas impecáveis é versátil na criação temática, na arte da composição e da estruturação das orações. (PINTO, 2020)

            A Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC foi instalada em 7 de setembro de 1988, com três cordelistas famosos e consagrados, dentre eles o ipuense Gonçalo Ferreira da Silva que assumiu como primeiro Presidente. Gonçalo esteve como Presidente de 1988 até 2021 quando assume a Presidência a Acadêmica Paola Torres. Gonçalo Ferreira da Silva, Mestre Gonçalo, como é tratado pelos seus pares da ABLC, assim como Dalinha são Acadêmicos Correspondentes da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes.

            Pela sua vasta produção na literatura de cordel Maria de Lourdes Aragão Catunda, concorre a uma vaga na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com sede no Rio de Janeiro. Ocupante da Cadeira Nº 25, cujo Patrono é também outro cearense precursor desta arte, Juvenal Galeno (1836/1931). Galeno foi tão atuante na cultura cearense que sua casa se transformou em um centro cultural que funciona até hoje, passados quase um século de sua morte.

            Dalinha tem forte atuação no mundo cultural e uma aproximação muito grande com o Cariri cearense. Da Prefeitura Municipal de Barbalha recebeu o título de Cidadã Barbalhense por ter idealizado e ser membro do grupo Cirandeiras do Cordel do Cariri, grupo que tratou de ressignificar a contação de história e cantigas de roda, que foram vivências de sua infância em Ipueiras lugar aonde formou sua identidade cultural nordestina. Também é sócia benemérita da Academia dos Cordelista do Crato, assim como da Sociedade dos Poetas de Barbalha. (http://cantinhodadalinha.blogspot.com/2020/12/). Nos arredores de sua terra, como já frisado anteriormente é Acadêmica Correspondente, no Rio de Janeiro, da Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes, que já teve a graça de receber sua visita por mais de uma vez.

            Também conforme Oliveira e Soares (2016, pág. 85):

Por último, apresentamos uma análise sobre os textos da autora Dalinha Catunda, cuja obra, em grande parte, versa sobre a questão feminina e da migração. Dalinha é uma personagem real e icônica do contexto no qual se desencadeia a motivação da migração de mulheres. Sua trajetória é marcada pelo embate numa sociedade patriarcal e conservadora e pela busca de autonomia e da liberdade.

            Mulher forte, decidida e destemida isso identificamos pelo pouco que pudemos captar das leituras de artigos científicos e sítios da internet, que contem informações da autora e sobretudo muito da sua produção de cordel.

            A guisa de conclusão passamos aos versos de outra, não menos criativa e competente, também membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e da Academia de Cordelistas do Crato. Nos referimos a poetiza Josenir Amorim Alves de Lacerda, cratense e que assim eternizou Dalinha Catunda, em seu folheto de cordel intitulado “A Abelha do Sertão”:

                                    Vieram me perguntar

                                    quem é essa Dalinha

                                    que tão faceira caminha

                                    sem no verso tropeçar

                                    quem sabe tão bem falar

                                    com carinho e precisão

                                    das belezas do sertão

                                    empolgada e sem preguiça

                                    nossa saudade ela atiça

                                    no forno do coração.

                                    Essa “cabôca” sem par

                                    responde sem ter receio

                                    é daqui do nosso meio

                                    digo sem medo de errar

                                    da cultura popular

                                    é ferrenha protetora

                                    é mestre e divulgadora

                                    enaltece o seu valor

                                    com zelo e com destemor

                                    do cordel é defensora (LACERDA, 2011)

                                   

Veja como a própria biografada se define com versos simétricos e caprichados, na sua poesia “Filha do Nordeste:

                        Sou Dalinha, sou da lida,

                        Sou cria do meu Sertão

                        Devota de São Francisco

                        De “Padim Ciço” Romão.

                        Eu sou rês da Macambira,

                        Difícil de ir ao chão.

                        Sou o brotar das caatingas,

                        Quando chove no sertão

                        Sou cacimba de água doce,

                        Jorrando em pleno verão.

                        Sou o sol quente do agreste.

                        Sou o luar do sertão.

                        Adoro o mandacaru.

                        Meu peixe, curimatã.

                        Eu tomo com tapioca,

                        O meu café da manhã.

                        Eu sou bichinha da peste,

                        Meu ídolo é Lampião.

                        Sou filha das Ipueiras.

                        Sou de forró e baião.

                        Sou rapadura docinha,

                        Mas mole eu não sou não,

                        Sou abelha que faz mel,

                        Sem esquecer o ferrão.

                        E se alguém realmente,

                        Saber quem eu sou deseja,

                        Digo sem medo de errar:

                        Sim Senhor, sou sertaneja! (CATUNDA, 2009)

                       

Referências:

ARAGÃO, R. Batista. Índios do Ceará e Topônimos Indígenas. Fortaleza: Barraca do Escritor Cearense, 1994.

FROTA, Bérgson. Lembrando o “Poeta de Ipueiras”. 2009. Disponível em: http://suaveolens.blogspot.com/2009/08/lembrando-o-poeta-de-ipueiras.html. Acesso em 12 MAR 2022.

LACERDA, Josenir. Dalinha Catunda: a abelha do sertão. Crato: Academia dos Cordéis de Crato, 2011.

OLIVEIRA, Ana Aparecida Alves Pereira; SOARES, Maria Clara Pereira. Cordelistas no processo migratório: a expressão da experiência feminina e nordestina. Ponto e Vírgula, São Paulo, v. 20, p. 83-103, segundo semestre 2016.

SOUSA, Ana Paula Gaspar de; SANTOS, Carlos Augusto Pereira dos; SENA, Patrícia de Fátima Melo Rodrigues; ANDRADE, Ronaldo Moreira (Orgs.). Escritos sobre a estação Ipueiras. Sobral-Ce: Editora SertãoCult, 2020.

Projeto de Lei do Gabinete do Prefeito de Ipueiras Nº 017/2019 de 30 de julho de 2019. Disponível em: https://www.camaraipueiras.ce.gov.br/requerimentos/208/Req_17_2019_0000001.pdf. Acesso em 13 MAR 2022.

https://ipueiras.ce.gov.br/historia/. Acesso em 12 mar 2022.   

https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/ipueiras/historico. Acesso em 12 mar 2022.

https://www.camaraipueiras.ce.gov.br/requerimentos/208/Req_17_2019_0000001.pdf. Acesso em 13 mar 2022.

https://memoriasdapoesiapopular.com.br/2020/04/06/poetisa-maria-de-lourdes-aragao-catunda-sintese-biografica/. Acesso em 13 mar 2022.

http://cantinhodadalinha.blogspot.com/2009/12/filha-do-nordeste.html. Acesso em 13 mar 2022.